segunda-feira, 19 de agosto de 2013

"Como matar sonhos", por Carmen Guerreiro


Carmen Guerreiro, no AnsiaMente
Minha meia-irmã recentemente veio a São Paulo para uma visita. Ela tem 12 anos e está justamente na fase transitória entre a infância e a adolescência, entre a visão de “meus pais são o meu mundo e só falam a verdade” e a rebelião completa do “eu sei o que é melhor para mim e para o mundo”. O riso infantil deu lugar ao silêncio e à cara de saco cheio adolescente. Mas tem uma coisa que faz seus olhos brilharem e sua boca tagarelar: escrever. “Ela fala para todo mundo que tem uma irmã escritora”, a mãe dela me disse. Fiquei toda orgulhosa. Em uma semana em São Paulo, ela devorou dois livros de mais de 300 páginas. Pediu para passar uma tarde toda na Livraria Cultura, um dos seus lugares preferidos da cidade. Eu puxei o assunto sobre seu gosto pela literatura.
“Eu escrevi um conto, nada demais, mas foi a primeira coisa maior que eu escrevi”, ela me contou.
“Que legal! Eu quero ler!”, eu respondi, empolgada. A cara dela apagou e ela olhou para o chão involuntariamente.
“É que… eu queimei. E apaguei do computador.”
“O quê??? Por quê?”
“Porque eu escrevi uma história inspirada no Gasparzinho [o fantasminha caramada], e minha tia disse que aquilo não era de Deus.”
Uma ira tomou conta de mim e, caso eu fosse um desenho animado, minhas orelhas teriam soltado fumaça e minha cara teria ficado vermelha. Não se trata de religião.  Trata-se de matar o sonho de uma criança. Uma criança que começa a andar com as próprias pernas, ter suas próprias ideias, desenvolver seus interesses e BUM, tem suas asas cortadas por uma pessoa em quem confia e que tem como modelo. E com isso, o lado criança a retraiu e ela logo desistiu “dessa maluquice” de escrever.
Quantas crianças vemos todos os dias na rua, no supermercado, no ônibus, no metrô, nas praças e parques recebendo a mesma patada que minha irmã recebeu e desistindo, assim, daquilo pelo que são apaixonadas, curiosas, instigadas? Inclusive tratei disso em outro post. “Isso é uma besteira, menino”, “Você nunca vai ganhar dinheiro com isso”, “Alguém já deve ter inventado isso”, “Pare de inventar moda”.
Em um mundo com tantos problemas complexos que exigem soluções inovadoras, quebras de paradigmas e questionamentos, precisamos que crianças (e adultos!) possam acreditar que é possível fazer diferente. Que dá para viver daquilo que a gente ama. Que sonhos podem ser realidade. Que ideias são poderosas e podem sim transformar o mundo. Que tudo aquilo que foi dito para elas não é uma verdade inquestionável nem uma realidade imutável.
Caí na minha própria armadilha dois dias depois que minha irmã me contou o causo do Gasparzinho. Ela me perguntou por que eu escolhi ser jornalista, e eu disse que meu sonho era ser escritora (escrevi dois livros aos 14 anos, mas não tive coragem de tentar publicá-los). “Então por que não foi ser escritora, oras?” ela me questionou. Temos que prestar atenção nas perguntas que fazem as crianças. Elas são as pessoas antes de se conformarem. São o otimismo antes da depressão. Eu não prestei essa atenção na hora e respondi: “Porque eu precisava viver de alguma coisa, ué.”
E no dia seguinte me dei conta da bobagem que falei. Fiz o mesmo que a tia dela, mas em outro nível. Quis dizer que aquele sonho era só um sonho, que a realidade é diferente. Mas não precisa ser. Se existem escritores profissionais, é porque é possível ser um escritor profissional. E o mesmo serve para tudo o que se imagina que é “demais” para a gente. Se todos achassem que ser astronauta, escritor, artista profissional, ator reconhecido, trabalhar na organização que admiramos (Pixar, ONU, Google etc.), não existiriam pessoas trabalhando nessa realidade. Então de onde vem essa autoestima baixa que não permite nem que a gente tente, experimente, teste antes de sabermos se vamos conseguir ou não? Algumas palavras e gestos de um adulto são capazes de mudar todo o futuro de uma criança, para o bem ou para o mal. Quantas vezes já não ouvi a frase “meu sonho era fazer faculdade, mas meu pai dizia que eu tinha que trabalhar e no fim ele estava certo”?
Você consegue olhar para trás e lembrar do momento em que incutiu que algo era “bom demais” ou “difícil demais” para você? Aposto que a maior parte desses momentos estava ligada a um adulto que disse que aquilo não era o caminho certo, ou que deu de ombros para a sua ideia. Li (na verdade ouvi) recentemente o livro Creating Innovators, de Tony Wagner (aliás, recomendo fortemente a leitura para qualquer um interessado no rumo que nossa sociedade está tomando), e ele insiste que por trás de adultos criativos que saem do seu quadrado e inovam a forma das pessoas viverem (o engenheiro por trás do iPhone, por exemplo, é citado no livro), existiu um adulto – professor ou familiar – que o incentivou na infância ou adolescência. E não necessariamente sendo um mentor, mas simplesmente dando o seu aval, dizendo que sim, ele deveria ir em frente.
Isso fez muito sentido para mim. E descobri que aconteceu comigo também, e provavelmente aconteceu com todos vocês. Apesar de eu me orgulhar da formação e criação que meus pais me deram, nunca foram super apoiadores do meu espírito criativo, empreendedor e explorador. Foram em alguns momentos, mas faltaram em outros. E eu reconheci pessoas-chave por quem eu tenho um imenso carinho até hoje que simplesmente disseram: “Ótima ideia, vai fundo!” ou “Você tem potencial” e que isso bastou para que eu movesse montanhas para fazer minha ideia acontecer.
Corri atrás do meu erro com a minha irmã, e aproveitei para resgatar o meu próprio sonho no processo. Propus a ela que fizéssemos juntas exercícios de escrita e construíssemos personagens, trama e tudo o mais de uma história juntas, via email (ela mora a 1000 km de distância). Um incentivo para ela, uma retomada de sonho para mim. Ela ficou muito feliz com a proposta e o desafio. Para terminar, criei uma conta de email para ela e meu primeiro email inaugurando sua caixa de entrada foi um texto me redimindo, e explicando que falei uma grande besteira. E que ela podia ser escritora se quisesse, sim.
E você, já mudou de ideia sobre uma escolha de vida em que se viu tendo que trocar o duvidoso (e inovador) pelo certo  (e conservador)? Você escolheu sua profissão baseado em um sonho ou na pressão para ser bem sucedido? Ou nos dois? Você já se conformou em um relacionamento por mais tempo do que deveria porque achou que o amor era aquilo mesmo, e você não encontraria alguém como uma vez sonhou? Você já desistiu da ideia de fazer um intercâmbio internacional ou simplesmente viajar para fora porque disseram que tem coisa melhor para gastar o dinheiro? Conte sua história aqui.

4 comentários:

  1. Oi Simone!
    Enviei um e-mail a você.
    Olha lá.

    Obrigada!

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  2. Nossa, Si, que história linda! Muito inspiradora.

    Vamos inovar sem queimar nossos sonhos! \o/

    Você tem Instagram?

    Beijos querida!

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