
Amigos,
este será o post mais dramático de todas as minhas corridas!
Ê, Gilmar, agora, também sei o que é se planejar para um momento e acontecer tudo diferente do que imaginamos...
* (as fotos colocarei depois, pois este computador é tão arcaico que não pega meu celular nele)
O Planejado:
Inscrição feita com mais de 1 mês de antecedência, e transporte acertado com amigo de corrida, para o motorista e 3 passageiros (eu, inclusa). Iríamos e voltaríamos no mesmo dia, ok, maravilhoso!
A Mudança: o dono do carro levaria também alguns parentes para um aniversário de família em Natal, resultado: alguém dançaria na parada das vagas...
Amigo que é amigo faz assim, se dança um dança todos, recolhemos o bloco e pensemos numa saída...
A saída: Emanoel, que também tem parentes em Natal, faz a proposta para sua mãe, a qual também vai para Natal!
Ok, voltamos ao Planejado, ir e voltar no mesmo dia, agora no carro da mãe de Emanoel!
Quinta-feira: revisão do carro, todo cuidado é pouco, não queremos imprevistos...
Sexta-feira: Emanoel roda com o carro uns 80km e tudo certo!
O Dia: Sábado: De malas prontas, pontualmente, às 07:00h da manhã, ouço a buzina na frente de casa, é chegada a hora, dado o abraço em Zeus e uns dois minutinhos de regras de comportabilidade, despeço-me dele dando uns beijinhos em seu focinho e aquele aperto de saudade, peço a bênção a minha mãe, dou-lhe um beijo e vamos pegar mais dois passageiros, outro amigo e a mãe de Emanoel.
Primeiro sinal: Onde o drama começa! Ao parar para o embarque o carro "morre", pensamos então que era gasolina, imediatamente vai-se a um posto e compra o suficiente para no posto seguinte enchermos o tanque! Ok, vamos lá!
Segunda parada: embarque da mãe de Emanoel, tudo certo, agora é encher o tanque e rumo à Natal!
Mas em Abreu e Lima, o carro perde a força, uma paradinha e o coração vai a mil, vem direto o pensamento "o carro quebrou", chama o reboque, já era a viagem... Tentar pensar num Plano B, onde todos ficassem satisfeitos, mas como fazer isto, não víamos saída, não tinha outro carro, a frustração tomou conta da situação.
Manter a calma era algo de Marte, naquele momento, mas esta que vos escreve, achou logo uma saída, iríamos para um ponto em Abreu e Lima que se pega ônibus direto pra Natal, ok, mas tem um problema, não contávamos com essas passagens extras, e lá (em Natal) como seria, voltaríamos no mesmo dia, ficaríamos onde, voltaríamos com quem, e agora o que fazer?
Chamei meu companheiro de corridas e tivemos uma DV (Discussão da Viagem), fora do carro, com os ânimos exaltados, expomos as opções;
- Ir pra oficina e esperar o conserto do carro,
- Ir os dois para o ponto de ônibus de Abreu e Lima e ir para Natal de ônibus;
- Desistir e ir pra casa.
Faz tempo que a palavra "aventura" tinha sido usada em meu vocabulário, e mais tempo ainda de ter sido posta em prática!
Movidos pela emoção e jurando que a razão resolveria tudo, conversamos com Emanoel e decidirmos ir de ônibus mesmo, clima tenso, mas aceitável para as 3 partes.
Combinamos então, de ligar para Emanoel para dar notícias sobre horários e valor de passagens. Enquanto ele ficaria com sua mãe esperando o reboque, isso já era quase 9:00h.
Chegamos então ao ponto de ônibus e a notícia: ônibus para Natal só de 13:30h, xiiiiiiiiiiiiiiiiiii, já era...
Ouvimos então uma vozes: "João Pessoa, Campina Grande, Natal..."
Carro fretado!É isso aí, pegamos um carro fretado para João Pessoa, é aí que os ânimos vão relaxando, mesmo com o medo de ir num transporte alternativo, já que nunca fizemos isto. Mas já dizia alguém: "Quem tá na chuva é pra se molhar!", mas não imaginávamos o quanto esta frase seria verdadeira...
Alguém já assistiu ao filme: "Um parto de viagem?", confesso que não assisti, mas este título combinaria muito bem com nossa "aventura"!
4 passageiros e o motorista, por 1hora dividimos experiências, ouvimos opiniões, gostos musicais, relacionamentos desfeitos, o motorista trabalha no IML, isso mesmo, Instituto de Medicina Legal, a metade da viagem foi sobre acidentes, mortes, e necrópsias, peeeeeeeeeeeeense! E o pensamento voltava para querer saber de Emanoel, será que consertou, será que ele ainda vem...
A moça ao meu lado tinha brigado com o namorado e impulsivamente pegou o transporte alternativo para Campina Grande, mo meio do caminho o namorado liga, e diz que tinha ido fazer feira, e quando voltou ela não estava mais em casa, e não é que ela queria voltar do meio do caminho?
Olhei nos olhos dela e disse: "Meu bem, é o seguinte, você VAI para Campina Grande, passa uns dias lá com sua mãe e sua filha e se ele quiser mesmo você, ele virá atrás."
Ela me olhou e disse: "-Mas ele ligou..."
Retruquei: "- Deixe de ser besta e tome as rédeas da sua vida!"
Ela concordou e seguimos viagem, ai, ai, agora tinha virado conselheira matrimonial, kkk!
E o assunto não parou, dessa vez foi o motorista que adora brega, e o passageiro que estudou música clássica, pense onde isso ia dar, já tenho mais de 30 anos, então fui criada ao som de uma boa música, de qualidade, de letras, melodias, que nos falavam à alma: Milton Nascimento, Caetano, Marisa Monte, Capital Inicial, e umas "aguinhas com açúcar" que não doía nos ouvidos de ninguém. Mas Brega, definitivamente não me entra, kkkk!
Imagine que o motorista teve a ousadia de dizer que a voz irritante de alguns cantores de brega era porque cantavam com paixão, com sofrimento, com emoção, kkk, peraí, tradução de emoção não é cantar com um gato preso na garganta, e a risada foi geral!
Não demorou muito e o assunto foi pro lado da "gaia", o motorista com 31 anos, já tinha 4 filhos e na dúvida se 2 era mesmo dele. Mostrou até foto, mas tinha medo do DNA, "vai que não é né véi, então deixa do jeito que tá", falou ele pra encurtar a história.
Ai, ai, com 1hora e 15 min, chegamos na rodoviária de João Pessoa, e rapidamente outro carro fretado nos esperava, agora, direto pra Natal.
Curiosamente, os outros dois passageiros também era 1 homem e 1 mulher, esta era de São Paulo e estava de férias em Ponta Negra (Natal), e o homem era morador de Natal.
O motorista, não tinha nem 45 anos e, pra variar, 5 netos. Ôxe, o povo daqui só dirige e faz menino, kkk!
"Show de bola" e "muído" eram as gírias da hora, kkkk! Sem falar que a voz do motorista era igualzinha a de Leonardo, o cantor sertanejo, não falei nada para não "inflar o ego" do rapaz, kkk!
Quase na metade do caminho para Natal, o carro do homem começa a dar uns sinais de que não iria aguentar a viagem, umas batidinhas, um pouquinho dágua, uma paradinha em cada posto de gasolina... cheguei a pensar se este dia era mesmo um bom dia pra sair de casa... Quem não lembra do desenho abaixo: "- Ó dia, o az..."
Depois de 3h de viagem, chegamos em Natal, um passeiozinho pela Orla (Praia dos Artistas)
e seguimos para bendita Praça Cívica (foto ao lado) local da largada da corrida..., sem descanso, sem nenhuma mordomia, procuramos um lugar para almoçar...após uma breve pegunta ao dono do restaurante, lá vem a pergunta: "- Vocês são de Pernambuco, não é?"
Ficamos curiosos pela explicação. "-Somos, sim!"
"É que o jeito de falar "pois é", denunciou logo a naturalidade, kkk! "
Eita, agora no rol da fama, imagine se ele soubesse o que já tínhamos passado, vixe!
De barriga cheia e roupa trocada no banheiro do restaurante fomos à espera dos kits, pego na sexta-feira por um casal, nossos mais recém-amigos!
15:45h estávamos vestindo a blusa, colocando chip e número de peito tudo no meio da rua! Se eu fosse parar e pensar no que tava fazendo, sei não viu, não me reconheceria..., mas corredor é bicho engraçado, quando vê já tá pronto! E sorridente!

Largada: Não deu tempo de alongar, de tentar ver o percurso, de comprar um gel carboidrato, nada, nadica de nada, o estresse ainda na cabeça, o cansaço, tudo aquilo que um corredor não precisa "levar nas costas", nós ainda estávamos carregando, após alguns minutos constatamos que o percurso tinha várias ladeiras, enormes e longas subidas e descidas, achando pouco, às 16:30h, após 5km descobrimos que os 10km seriam completados em 2 voltas, quase tive um treco, depois disso chuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuva, muita chuva, foram os 5km finais de total chuva, atrapalhando até o mais destemido corredor... As águas rolavam no meio da rua, tênis encharcado, pareciam pesar uns 5kg cada um, fora o medo de escorregar e o estrago ser pior, resultado: tive que andar em algum pedaço, para descansar um pouco e me proteger de possíveis quedas.
Isso, sem querer nem pensar onde iríamos passar a noite ou como voltaríamos para casa...
Terminada a corrida, mesmo com caminhadas, ainda o fiz em 1hora e 11minutos. Um horror de tempo, mas pra quem passou o que eu passei, tava de bom grado!
Encontramos com o casal recém-amigo e fomos tentar uma vaga no hotel onde eles estavam, parecíamos 2 pintos molhados, o cansaço era visível, mais ainda assim, ouvimos o rapaz da portaria dizer, "- NÃO HÁ VAGAS...tentem ali no Vila Park", hotel 3 ou 4 estrelas, da Av. Salgado Filho...
Na portaria um rapaz bem simpático nos recebeu, ÃH, VAGAS, NÃO, NÃO TEMOS...
Olhei para o indivíduo (gente, eu já fiz teatro, mas nenhuma peça sai tão perfeita quanto aquela que você mostra a verdade), e disse: "-Moço,viemos de Olinda para participar de uma corrida em sua cidade, veja qualquer quarto, mesmo com vista pra parede, que já serve, só queremos passar a noite, tomar um banho, tirar essas roupas molhadas e dormir um pouco..." Nessa altura do campeonato, ter tudo isso era ganhar na loteria. Ele olhou pra gente e viu nossa situação e disse: "- Já participei de corridas também, hoje não tenho mais tempo, trabalhando em hotel fica difícil...tem um quarto vago aqui!"
Pronto, graças a Deus, não ficamos na rua, o preço tava salgadinho, mas pela hora conseguimos um bom desconto!
Avisamos aos nossos amigos, marcamos a hora da volta de amanhã e subimos, mortos, cansados, exaustos, e agora felizes!
Gente, confesso que quando entrei naquele quarto meu coração se acalmou, respiramos fundo, agradecemos a Deus, um bom banho, demos alguns telefonemas, compramos alguma comida, comemos e nos entregamos aos braços de Morfeu!
No dia seguinte, exaustos e agradecidos, tomamos o café da manhã digno do mais nobre plebeu, (percebeu o trocadilho, kkk), então deu pra imaginar as longos minutos naquele recinto para saciar nossa destemida fome, kkkkk!
Ao vencedor: A VITÓRIA!
Aos competidores: AS HISTÓRIAS!
Pensar em desistir, é claro que pensamos, e em arrependimento também, mas no final das contas, mesmo com tantos gastos não programados, o saldo foi: VALEU A PENA, Ê-Ê, VALEU A PENA, Ê-Ê!
Às 11:30h voltamos pra casa, contando os tropeços, rindo de cada angústia, com mais uma medalha, dessa vez com gostinho todo especial: O DA AVENTURA!!!
Às 16:00h eu já estava em casa, contando à minha mãe, mais uma história da minha vida, ela morrendo de pena de mim, e eu já pensando na próxima, kkkk!
Beijos!